I
Quando olho pra mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
II
[...]
Isto de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar pra elas.
Nenhuma delas em mim é serena...
De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros, ou as que não há.
Opiário
[...]
Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,
Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!
Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
Queria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.
[...]
E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter essas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas
E basta de comédias na minh'alma!
56
Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
[...]
Com a substância essencial do meu ser abstracto
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultra-transcendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!
Cárcere do Ser, não há libertação em ti?
Cárcere do pensar, não há libertação em ti?
Ah, não, nenhuma - nem morte, nem vida, nem Deus!
67
Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
107
Ah, a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
Les Passants


- Quando somos mais jovens, nós acreditamos que vamos nos ligar a muitas pessoas. Mais tarde, percebemos que isso só acontece algumas poucas vezes. E a gente pode estragar tudo. Cruzar os fios... O mundo talvez seja menos livre do que imaginamos.
- É estranho. Um dia eu li meu diário de infância e fiquei surpresa ao perceber que eu lidava com a vida da mesma forma como hoje em dia. Eu tinha mais esperanças e era mais ingênua. Mas, no fundo, eu me sentia exatamente da mesma forma. Percebi que não mudei em nada.
- Acho que escrever aquele livro foi como construir algo que me impedisse de esquecer os detalhes do tempo. Algo que me lembrasse que realmente estivemos juntos. Que foi verdade, que realmente aconteceu.
- É bom saber disso, porque eu sempre pensei que eu fosse anormal por não conseguir seguir em frente. As pessoas tem um caso, ou até relacionamentos... terminam e simplesmente esquecem tudo. Mudam como trocam de cereal. Sinto que nunca fui capaz de esquecer as pessoas com as quais estive, porque cada uma tem suas qualidades. Não dá pra substituir ninguém. O que foi perdido está perdido. Cada relacionamento que termina me magoa. Nunca me recupero. Por isso tento ter cuidado quando me envolvo com alguém, dói demais. Eu evito até transar porque vou sentir saudades de coisas mundanas daquela pessoa. Tenho obsessão por pequenas coisas... talvez eu seja louca, mas quando era menina, minha mãe me disse que eu sempre chegava atrasada à escola. Um dia ela me seguiu para saber o motivo. Eu ficava vendo as castanhas caírem das árvores e rolarem na calçada ou as formigas atravessando... ou a sombra de uma folha num tronco de árvore. Pequenas coisas. Acho que acontece o mesmo com pessoas. Vejo pequenos detalhes tão específicos que me comovem de cada uma e sinto saudades depois. Não dá pra subtituir ninguém porque cada um é uma soma de belos detalhes...
- Achei melhor parar de romancear as coisas. Eu vivia sofrendo o tempo todo. Tenho muitos sonhos que não tem nada a ver com a minha vida afetiva. Isso não me entristece, as coisas são assim.
- É por isso que você tem um relacionamento com quem nunca está por perto?
- É, é óbvio que eu não sei lidar com o cotidiano de um relacionamento. Nós temos esses emocionantes momentos enquanto estamos juntos, e então quando ele viaja, eu sinto saudades... mas, pelo menos, eu não morro por dentro. Ter alguém sempre por perto me sufoca.
- Mas você disse que precisa amar e ser amada...
- Mas quando isso acontece, me dá enjôo. É um desastre. Só fico realmente feliz quando estou sozinha. Mesmo estando sozinha é melhor do que sentir solidão com alguém do seu lado. Para mim, não é fácil ser romântica. Você começa assim mas depois de se dar mal algumas vezes você se esquece dos seus devaneios infantis e aceita o que a vida lhe dá. Isso nem é verdade. Eu não me dei mal. Só tive muitas relações sem graça. Eles não foram cruéis. Me amaram... mas não havia uma ligação nem emoção, pelo menos não da minha parte. Não é nem isso... eu estava bem até ler seu maldito livro! Mexeu comigo... me fez lembrar de como eu era romântica, de como eu tinha esperança. Agora é como se eu não acreditasse mais no amor. Não sinto mais nada pelas pessoas. De alguma forma, eu coloquei todo o meu romantismo em uma única noite e nunca mais fui capaz de sentir tudo aquilo de novo. Me fez sentir fria, como se não existisse amor para mim. Realidade e amor são contraditórios para mim. É estranho... todos os meus ex-namorados estão casados. Os homens saem comigo, nós terminamos e eles se casam. Depois, ele ligam e agradecem porquem lhes ensinei o que é o amor e eu os ensinei a amar e respeitar as mulheres. Quero matá-los! Porque eles não ME pediram em casamento? Eu teria recusado, mas pelo menos poderiam ter pedido. Mas é minha culpa! Eu sei que é minha culpa porque eu nunca senti que era o homem certo. Nunca! Mas o que significa o "homem certo"? O amor da sua vida? Esse conceito é absurdo! A idéia de que nós só nos completamos com outra pessoa...é absurdo! Eu acho que sofri demais e me recuperei. Então agora não faço mais força alguma. Sei que não vai dar em nada. Não adianta nada...
- Estou tão feliz por estar aqui. De verdade. Estou muito contente que você não se esqueceu de mim...
- Não, eu não esqueci...e isso me irrita! Você vem a Paris, todo romântico... e casado. Então, dane-se. Não me entenda mal. Não estou tentando conquistá-lo. A última coisa que eu preciso agora é um homem casado. Muitas coisas aconteceram que nem tem a ver com você mais... é sobre aquele momento no tempo que se foi para sempre. Eu não sei...
- Eu estou realmente feliz por te ver mesmo você tendo se tornado uma ativista paranóica e maníaco-depressiva...eu ainda gostei de ter você do meu lado!
...
O amor é meu, o coração é meu
De mão beijada entrego a quem quiser
Eu só queria ter um bem
Faz de conta que eu já tenho alguém
E que esse alguém também me quer
O lugar é meu, o coração é meu
E aqui estou pro que der e vier
E pouco importa
As pedras do caminho e a felicidade
Se a minha sorte
A dura caminhada é a minha realidade
.
CéU (2005)
01. Vinheta Quebrante
02. Lenda
03. Malemolencia
04. Roda
05. Rainha
06. 10 Contados
07. Vinheta Dorival
08. Mais um Lamento
09. Concrete Jungle
10. Veu da Noite
11. Valsa pra Biu Roque
12. Ave Cruz
13. O Ronco da Cuica
14. Bobagem
15. Samba na Sola
Remixed EP (2007)
01. Roda (Bombay Dub Orchestra’s Grateful Dub Radio Mix)
02. Malemolencia (1000Grau Martins Remix)
03. Rainha (ZAMAN 8′s Cadence Remix)
04. Lenda (Eidetaker Encanto Mix)
05. Malemolencia (Instituto Remix)
06. Roda (Bombay Dub Orchestra’s Grateful Dub Mix) (Full Version)
07. Rainha (Mark de Clive Lowe Remix)
Vagarosa (2009)
01. Sobre o amor e seu trabalho silencioso
02. Cangote
03. Comadi
04. Bubuia (com Anelis Assumpção e Thalma de Freitas)
05. Nascente
06. Grains de Beauté
07. Vira lata (com Luiz Melodia)
08. Papa
09. Ponteiro
10. Cordão da insônia
11. Rosa menina Rosa (com Los Sebosos Postizos)
12. Sonâmbulo
13. Espaçonave
Caravana Sereia Bloom (2012)
01. Falta de Ar
02. Amor de Antigos
03. Asfalto e Sal
04. Retrovisor
05. Teju Na Estrada
06. Contravento
07. Palhaço
08. You Won't Regret It
09. Sereia
10. Baile de Ilusão
11. Fffree
12. Streets Bloom
13. Chegar Em Mim


01. Manguebit
02. A Bola do Jogo
03. Livre Iniciativa
04. Saldo de Aratú
05. Uma Mulher com W... Maiúsculo
06. Homero, o Junkie
07. Meu Esquema
08. Super Homem Plus
09. Ligação Direta
10. Lourinha Americana
11. 6h30am, um abraço!
12. Batedores
13. Minha Galera
14. Garota de Ipanema
link original: http://coisadenego.blogspot.com/
Às vezes uma voz interior insiste no futuro
Aí é quando se cai na gargalhada
Porque é o seu futuro
O futuro é uma câmara de gás!
"Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente" Krishnamurti
14 bis(1)
16volt(1)
5 a seco(1)
abluesados(1)
agalloch(1)
alcest(1)
alternative(14)
ambient(16)
america(1)
anathema(3)
anekdoten(1)
anneke(1)
antimatter(1)
argine(1)
arisa(1)
art tatum(1)
arvo pärt(1)
bad company(1)
balmorhea(1)
beady belle(2)
belchior(1)
blackfield(1)
bluz (the)(1)
bon iver(1)
bugge wesseltoft & sidsel endresen(1)
cat stevens(1)
cerva grátis(1)
céu(1)
chemlab(1)
chet baker(2)
chorinho(3)
cibelle(1)
clara moreno(1)
classical(8)
clem snide(1)
clogs(1)
clutch(2)
colour haze(2)
cream(1)
creedence clearwater revival(1)
cretina(1)
criolo(1)
crowbar(1)
damien rice(2)
danko jones(1)
dark suns(1)
dave brubeck(2)
electronic(7)
folk(15)
hermano(2)
in extremo(3)
industrial(9)
italian(17)
jazz/blues/swing(32)
knorkator(2)
metal(23)
miles davis(2)
movieholic(123)
neofolk(9)
nina zilli(2)
nostalgia(2)
prog(31)
schandmaul(2)
som brazuca(36)
stoner/sludge(47)
textos(6)
tom waits(5)
video(37)
volbeat(2)
